Um dia triste

Hoje é o meu primeiro dia de aulas, na Universidade de Warwick, Reino Unido. Podia seguramente ser um dia de excitação e comodidade voltar ao sítio onde me dá abrigo intelectual e espiritual. Como em Matemática ou em Ciência, em muitas vezes se tropeça na assumpção de que as aparências mostram a parte do todo. Não há razões boas, há razões más. Hoje foi provavelmente o dia mais triste da minha vida. Perdi um verdadeiro amigo.

Quando somos pequenos e sonhadores, sonhamos que o futuro que iremos construir para nós mesmos é feito das intenções colectivas de remediar os vícios do passado. De pensar e regenerar. Quase mesmo como a relação causal pensar – regenerar. O mundo é então literalmente aquilo que podemos ter. Esperamos que tal conforto perdure, mentes saudáveis e determinadas; maslentamente começamos também a reparar que, ao passar dos anos, deixamos de ser crianças e a inocência desaparece: de nós se demanda responsabilidade. Tal ilusão, como todas, não perdura: e o dia chegou. Hoje sinto que uma parte simplesmente morreu.

A admiração que tinha pelo Jack era notável. Uma mente brilhante e uma capacidade diria única de racionalizar o mundo. O Jack estudava Química também em Warwick e viveu comigo por dois pristinos anos. Nunca havia conhecido um carácter tão etonante, cristalino e bonito como o dele. A sua devoção â causa da Ciência era eternecedora. O seu estudo bastante teórico de Química permitiu-lhe facilmente entender os princípios básicos da Física, ou pelo menos apreciá-los. Rodeado de um ambiente selecto de estudantes de matemática, o Jack aspirava entender Matemática de licenciatura. Os seus problemas passados com Matemática de level GCSE atrasaram-no um pouco. Mas ele não desistiu e penso que seria alguém que teria capacidade para entender tal abstracção da Matemática.

Uma das áreas que ele mais curiosidade tinha era em Teoria de Grupos. A gíria técnica e a pura abstracção do tópico fê-lo sonhar em entender o formalismo e as ideias trabalhadas. Como ele tive os mais calorosos momentos em que se aprende mais um conceito. E mais outro e outro. O Jack crescia na inteligibilidade da Matemática. No que encontrei num caderno dele, que sabia conter pedaços do seu brilhantismo em papel, encontrei uma das melhores definições de teoria de grupos. Isto, por um químico:

“However the abstract formalisation of the group axioms, detached as it is from the concrete nature of any particular group and its operations, allows entities  with highly diverse mathematical origins in abstract algebra and beyond to be handled in a flexible way whilst retaining their essentially structural aspects.”

Com carácter brilhante, sumptuoso no uso das palavras e cuidado na análise, o Jack possuía um conhecimento de Literatura fenomenal e  isso reflectia-se sobejamente na maneira como elaborava formas de expressão de Ciência, como em documentos, exames ou papers de investigação. Dos professores e investigadores que o conheceram, deixava-lhes uma marca de génio estranho. Os seus resultados culminaram há semanas quando conseguiu convencer uma equipa de investigação do Departamento de Física de que a sua solução alternativa para o problema era viável. A criatividade saia da sua cabeça como calor cerebral.

O seu gosto de Música era impecavelmente alto em nível. Baseado na bateria e nos encantos da percussão, o Jack construía um gosto progressivo de Música subtil e grandiosa. Ele era mesmo um baterista – e daqueles que nunca tinha ouvido à minha frente. Mantinha a paixão demonstrada naqueles tambores e pratos, ou tocando guitarra. Pudemos mesmo ter a bateria dele na nossa casa e tocar ás 4 da manhã. Com ele tive dos momentos mais bonitos em que já senti Música ao mais puro nível. Foi ele que mostrou o outro nível do que é amar a bateria.

Eu sinceramente sentirei a falta deste meu eterno irmão. Passar por esta situação faz-me reafirmar- uma vez mais – a singela mediocridade do pensamento de que tal coisa como vida depois da morte existe. Por complicado que seja, uns aceitam o resultado de uma situação e outros não. Nunca mais poderei ver o Jack, nem eu nem ninguém. Mas ficará o que o seu  corpo fez neste ponto do Universo. Até sempre, meu irmão.

Jack Everson
1990-2012

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