Epistemologia – Filosofia da Ciência (Post #2)

Todas as verdades são fáceis de entender uma vez descobertas; o problema é descobri-las. – Galileu Galilei

Este é o segundo post sobre Epistemologia – série em Filosofia da Ciência.

Continundo a nossa digressão sobre Filosofia da Ciência, antes de nos aventurarmos por caminhos mais concretos, há que regressar a uma discussão fundamental: qual é o domínio de acção da Ciência?
É óbvio esperar encontrar uma certa noção daquilo que nos propomos explicar. A tarefa da Filosofia da Ciência começa certamente aqui. Onde é que a Ciência começa e acaba, que tipos de actividades podem ser consideradas como Ciência? Esta questão não é consensual. O problema é precisamente em definir as fronteiras daquilo que deve ser examinado como Ciência.

Ciência: de onde a onde

René Descartes, um dos maiores filósofos do século XVI, contribuiu com grande parte do início de uma Filosofia mais fundamentada e isto levou-o a uma indagação mais exaustiva do sistema epistemológico. É considerado como o grande difusor do Racionalismo, que teremos oportunidade de abordar.

Certamente que a maioria das pessoas considera Física como o exemplo mais puro de Ciência, pelo seu papel impulsionador e pelos resultados que se obtiveram. No entanto, um certo nível de crítica tem sido despertado em relação à Física: uns sugerem que esta área está a tornar-se menos cientifica, devido à sua evolução como simples modelação matemática, enquanto que outros não concordam com esse estatuto – dê-se o exemplo de Biologia Molecular, pela sua ambiguidade no mundo dos negócios e da indústria farmacêutica. Certamente que a actividade de caminhar não corresponde de todo a qualquer actividade científica; mas como distinguir todas estas áreas de acção?

Igualmente problemáticaa, as áreas de Economia, Psicologia, Arqueologia ou Antropologia parecem abrir mão a uma crise de definições. Será que, por exemplo, o estudo da nossa espécie tem mais “ciência” na sua abordagem biológica ou na sua vertente histórica, mais interpretativa?

O método científico oferece desafios na sua definição. O status quo de toda a produção científica – e portanto da sua conotação – altera a maneira como as pessoas veem Ciência. Uns tomam a posição de que o processo que actualmente se escolhe é algo que “desumaniza” o objecto, mas certamente que outros tomam algo científico como merecedor de respeito, rigoroso e imparcial. Há então que definir o que é esta caracterização de ser “científico”.

Mais concretamente, o que pensar do estatuto de Ciência, que é derivado do conceito ocidental ? A Revolução Científica, nos séculos XVI e XVII, definiu, em grande parte, o objectivo e o método em que a Ciência se deveria assentar. Este é um exemplo clássico do que este estudo sobre Ciência pode revelar: certas visões são estritamente descriptivas – encapsulando percepções comuns em todas as áreas a que lhe pertencem – ou normativas, que enforçam a sua essência, em suma, o que a Ciência devia ser.

De qualquer maneira, parece ser claro que a palavra “Ciência” transmite e desenvolve um sentido de:

  • compreensão geral de como os humanos ganham conhecimento no mundo envolvente.
  • compreensão do que é tão especial na Revolução Científica em relação a outros tipos de investigação do mundo.

Como descrevi no post passado, existem categorias centrais na discussão de Filosofia da Ciência: a maioria prende-se a uma vertente epistemológica ou metafísica. Dentro das questões epistemológicas, existe uma particularmente interessante, estou certo que concordarás:a ideia da objectividade. Esta qualidade pode ser usada como uma confrontação entre ausência de vício mas também como uma visão em que a existência de alguma realidade no mundo exterior é independente da nossa conceptualização. Questão natural:  será que teorias filosóficas conseguem explicar uma realidade objectiva?

Disputas dentro da Ciência

É óbvio também notar que, mesmo dentro da comunidade científica, a definição e o domínio da Ciência não é nem tem sido algo unanimemente reconhecido.

Descartes, por exemplo, tentou dar a sua posição (normativa) de como a Ciência devia ser.  Era comum nos livros da altura haver um pequeno prefácio com o método, como se de uma receita se tratasse. Com o advento da revolução das Ciências Sociais no início do século XX, esta visão cai por terra: muitos não acreditavam que certas áreas que deviam ser científicas não podiam ser através deste método. Argumentos a favor incluem que a Ciência é demasiado criativa e imprevisível para seguir uma simples “receita”. No espectro oposto, há quem partilhe uma visão mais lógica da Ciência: a conceptualização de uma explicação a um nível mais abstracto em que seja possível manipular tais conceitos de uma maneira desambigua. Esta visão presume que o filósofo é o agente em que tenta dar uma descripção das relações lógicas entre proposições abstractas e assim harmonizar as diferenças conceptuais encontradas ao longo do espectro de áreas científicas. (1)

É óbvio o desdém que muitos filósofos têm por esta atitude: para muitos, o processo reflexivo é bom em si mesmo e o seu valor reside na sua existência, mais do que nos resultados que (vagamente) tentam alcançar: “Filosofia como uma fábrica mental”.

No próximo post vamos tentar responder (parcialmente) à questão de como a Ciência funciona, usando três vertentes de pensamento bastante difundidas: o Empirismo, o “Empirismo Matemático” e a Teoria Social da Ciência.

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(1) Eu pessoalmente tenho mais inclinação para pensar neste caso – e seguir um “racionalismo” que se tornou dominante com Bertrand Russel e a sua Filosofia Analítica.

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