White Lies – Ritual (2011) [Review]

Quem conhece os londrinos dos White Lies sabe que eles sempre tentaram marcar uma posição no mercado pós- punk-revival – na minha opinião, mais que necessário, pois são uma referência. O CD To Lose My Life… (2009) apresenta um ambiente de grande renovação do género. Letras como Death ou refrões como E.S.T. não se ouvem todos os dias. Há algo de jovial nesta banda. Há esperança no Rock. Analisemos então o álbum novo, lançado em 2011, faixa por faixa:

Ritual, a capa

1.     Is Love

“And I know the only thing I’ve ever found, that’s greater than it always sounds. / Is love”

Introdução fenomenal. O som desajeitado, o ritmo balançado, o bandolim… Esta é, sem dúvida, uma das músicas que penso terem sido sobreproduzidas. A melodia pede uma combinação bittersweet: uma melancolia melódica num tempo progressivo, mas intimista – algo bem trabalhado logo de cara. Quando aquela percussão entra em ritmo funky, alta e seca, dói ouvir: soa a desperdício. A estrutura de Is Love tinha tudo para triunfar, uma ponte bastante decente, um outro exemplo de produção, muita produção.

2.    Strangers

“I’ve got a sense of urgency, I’ve gotta make this happen, no stone unturned”

Quando ouvida em apresentações ao vivo, esta música soa épica! O intro, reminescente de E.S.T. (do disco anterior), o refrão expansivo e grandioso, tudo soa grande nesta música – até mesmo o nome, quão convencional. Na produção, embora não se possa dizer que tenha perdido a graça bruta da versão ao vivo, tem cortes bastantes polidos. Não é suposição. O teclado lembra definitivamente qualquer música aleatória de David Bowie; o facto é que precisava de um à là Uprising! Uma música forte com certeza e, quem sabe mesmo, um “single a ser vendido nas prateleiras perto de si”.

3.    Bigger Than Us

“You went where the horses cry, you’ve never taken that way with me before. / Did you feel the need for change?”

Quando começa a crescer a reputação, ninguém quer ficar com status de banda sortuda, de momento. Então criam-se tentativas furtivas de manter a sede numa certa televisão, que investe umas certas libras em promoção de música comercial (uma rede mundial que começa com M acaba em V e tem T no meio). Quem tem culpa não é a banda – mesmo que seja complacente – e sim o mercado, como ele está no momento.

É aceitável que isso aconteça; no entanto, não pode passar despercebido. Não passa de uma música average. Quem ouve o intro, e a primeira estrofe, tem uma noção interessante de progressão, uma linha vocal profunda e todo o melancolismo sobejamente conhecido através da voz de Harry McVeigh. Quando o refrão entra, dois sentimentos se levantam: a) interessante, este estilo gritado. b) que comercial, que adolescente. Certamente se pode dizer que é um single falhado e o pior até o momento.

4.    Peace and Quiet

“I feel this great pressure coming down on me / And the tide of my bliss, pulling at your sympathy”

Não será pretensioso demais criar uma música mais instrumentalmente rica num segundo álbum. É até bom ver tal feito. Peace and Quiet é uma música agradável que respira uma jovialidade estreante neste álbum e mesmo na carreira musical da banda. No entanto, desengane-se quem pensa que é uma viagem. Não o é. Ser minimalista neste caso pouco ajuda; diria mesmo que prima mais pela repetição do que pela criatividade.

5.    Streetlights

“Can anybody hear me? Is anybody out there? / Not a soul in the street lights, this might be love”

Ora, aqui uma faixa interessante. Sem ser absurdamente única ou genial é um óptimo sinal de evolução musical. Melódica e mais upbeat, menos mórbida e mais alegre. No entanto, nota-se algum cansaço nesta música. Talvez seja por ser demasiado imediata ou num tom baixo demais. Não deixa de ser uma música ordinária.

6.    Holy Ghost

“You were crying on the shoulders… Of the men in the shadows. / Who ever taught you to sell your sex like that?”

A absoluta desilusão do álbum, ao contrário da poderosa atuação ao vivo que tem sido feita há alguns meses. Aquele ritmo enérgico, aquele intro monumental, um autêntico gostinho de revival de um Unknown Pleasures… Depois vem a desgraça: a música mais irritante, insolente, comercial, superproduzida, desgarradamente reles. Por quê?

7.    Turn The Bells

“The market-place has nothing to sell / Left alone its awnings shiver”

A faixa mais épica do album. E ponto. A produção desta faixa mostrou-se bem sucedida, equilibrada.

Dinâmica perfeita: intro escuro, progressivamente mais negro, aumentando o nível dos sintetizadores, estridentes e densos; uma bateria soberba, seca, tribal mesmo. Há que admirar particularmente a estrutura da música: entra num sabor bem amargo e dinamicamente mais mortífero. Depois, como uma chuva suave no meio de uma tempestade impetuosa, sobe o refrão, equilibradamente melódico, com textura. Não há dúvida que merece menção honrosa como a melhor criação artística deste álbum.

8.    The Power and the Glory

“As empty handed leaving as I was when I came, Tip-toed through the rubble and running through the flames”

Outra música aventureira no álbum: e eu gosto! Uma estrutura bastante diferente, de uma subtileza que prima mais pela veia pop que mostram. Nada de mal-intencionado, eu sei. Um pouco de pianinho pop e sintetizadores dos 80s.  A bateria mais virada para samples. É uma aventura mediana. De fato está bem posicionada, o que abre espaço para uma grande música.

9.    Bad Love

I bought a tuxedo and I bought a gun (…), nobody dares to lift a finger / They can see my heart is down and injured”

Esta sim, é uma música com garra. Diferente do debut mas responsável no caminho que leva – e não apenas um conjunto de elementos clichê “ei-estou-aqui-e-sou-diferente”. Um tempo moderado, uma batida que grita simplicidade, um ritmo que é apaixonante. Esta música mostra muito como a banda não quer mesmo que fique associada a vozes graves, a bumbos e tom-toms e baixo grudento. Toma mais a rédea pela cinemática de algo mais excitante dentro do mesmo universo. E como disse, só há que agradecer. E mais, há que reconhecer a letra.

10. Come Down

“Felt love last night for the first time in a long time, feels like coming home to stay”

Tentar bater uma faixa como The Price of Love para fechar um álbum soa instantaneamente a desafio; mas quem diria, aqui está uma faixa com alma. Come Down é uma faixa dramática no mais alto estilo White Lies. Super pontos para a competente percussão e para o ritmo que encorpa esta composição. O final é uma agradável surpresa, também. Um minicoro improvisado canta de um jeito melódico e apreensivo no final deste segundo álbum. É engraçado mesmo reparar que a segunda parte deste LP supera em larga escala da primeira (normalmente considerada a mais forte). Não sei o que isto pode querer dizer. Fazer duas últimas metades deste álbum seria um sonho que não é compatível com o que a banda deseja do mercado nem mesmo com o que o público-alvo deseja ouvir.

Dados:

Lançamento: 17 Janeiro de 2011
Gravado:
Assault and Battery 2 (Londres, Inglaterra)
Duração:
49:39 minutos
Produtor: Alan Moulder e Max Dingel
Editora: Fiction

Capa do single Power and the Glory

Singles:

Bigger Than Us (3 de Janeiro de 2011)
Strangers
(21 de Março de 2011)
Holy Ghost (10 de Junho de 2011)
The Power and The Glory (25 de Setembro de 2011)

Síntese: Este álbum representa uma sólida evolução, mas não tão bombástica como muitos fizeram crer. Até porque uma banda não pode fazer isso a esta velocidade. O White Lies é um grupo de meros rapazes normais com uma banda para passar o tempo… Não se pode esperar milagres. Mas há sempre surpresas e, como disse, há esperança no Rock.

Pontos Favoráveis: soberba capa – clássica e tocante; evolução sonora natural; produção de percussão e bateria; Letras cativantes; Turn the Bells, Come Down, Bad Love

Pontos Fracos: single de apresentação vulgar, formato 10 músicas, superprodução em faixas chave; desnecessária vitimização oitentista.

Rating: 7.0 /10◊

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